Querida D. Ivone Lara,
Grande enfermeira, que curou corpos e almas, e se tornou a maior referência do nosso samba. Você acolheu cada um de nós como família: fez de todos os aprendizes de samba seus netos, seus sobrinhos e, sobretudo, seus filhos. Escrevo-lhe hoje porque os tempos mudaram, e o meu coração quis lhe contar como estão as coisas por aqui.
Você se lembra das rodas de samba que fazíamos nos quintais? Diziam, e com toda a razão, que eram momentos de pura alegria. Lembra também dos terreiros, onde a fé e a melodia se encontravam? Hoje, tudo isso se espalhou: o samba se tornou ainda mais conhecido, as rodas se multiplicaram e os ajuntamentos para cantar só aumentam. Mas escrevo isso com um peso na consciência, pois sei o quanto os nossos ancestrais sofreram para nos entregar o pouco de liberdade que temos — uma liberdade que, infelizmente, continua cheia de limites, atravessada pelas desigualdades sociais, pela falta de oportunidade, pelo poder econômico que exclui, e pelo racismo que insiste em nos ferir e nos impede de viver uma felicidade plena.
Tia Ivone, a dor ainda existe. Muita gente continua perdendo a vida apenas por causa do tom da sua pele. Muitas outras situações de injustiça são ignoradas, como se não tivessem importância, e ficamos nesse ciclo onde nada parece mudar. É triste ver que, para alguns, vale mais tentar apagar a sua história do que assumir a sua origem; infelizmente, ainda existem aqueles que preferem "pagar para não ser negro", numa tentativa de se esconder, pois não se reconhecem como parte dessa história tão forte e bonita que construímos.
Às vezes, fecho os olhos e fico imaginando: como seriam as suas músicas se você estivesse aqui hoje, vendo tudo o que vemos? Com certeza, continuariam sendo o nosso refúgio, a nossa voz e a nossa força.
Só tenho mesmo é gratidão no peito. Gratidão por você ter passado por esse mundo, ter pisado na nossa terra e ter deixado um legado que ninguém pode apagar. Você não partiu: continua viva em cada nota, em cada roda e no coração de cada um de nós.
Com todo o carinho e respeito,
Alguém que ouve e sente o seu samba.
Vicente Zaki.
Que sensibilidade atualizada. Quanta coisa podia ser diferente, ou melhor, nem mais existir. Parece que retrocedemos. Avanço zero! Continuamos, infelizmente, cobrando as mesmas coisas para uma sociedade que precisa ser balançada. Dona Ivone não deve estar muito feliz. Ao mesmo tempo que brigamos por justiça, reparação, vemos que um sentimento avesso a toda busca de reparação estimulou naquelas pessoas que se acham superiores, a vontade de nos segregar. Parabebs pela carta. Parabéns por esse seu olhar atento.
ResponderExcluirVamos seguindo, escrevendo e pontuando nosso olhar. Obrigado pela sua contribuição..
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